As Crônicas de Nada

28.7.06

Ser gandula é viver

Ser gandula é viver. Ele gostava de dizer que esse não era o seu lema, mesmo que a frase estivesse claramente estampada no pára-choque do seu fusca. Josué, também conhecido como Jojô, era um são-paulino inconfundível. Descobriu a arte da gandulagem aos sete anos quando seu tio, que era um dos diretores do tricolor, e o convidou a trabalhar num jogo do campeonato paulista.

Jojô não desapontou. Devolveu a bola com velocidade impressionante. Velocidade que incomodou alguns torcedores que insistiam para que Jojô “segurasse” mais a bola tendo em vista a difícil batalha que seu tricolor vencia já nos acréscimos do segundo tempo. Profissionalismo, por certo, não faltava ao novo gandula.

Jojô tornou-se figura conhecida nos bastidores do clube. Mesmo tendo o tio como diretor sempre fez questão de respeitar a escala dos gandulas para os jogos no Morumbi. Não queria de qualquer forma atrapalhar a felicidade de outro gandula.

Os problemas na vida de Jojô começaram quando a chapa em que seu tio concorria foi derrotada na eleição são-paulina. O novo presidente reformulou a área dos gandulas de tal forma que Jojô fora totalmente excluído do exercício de sua paixão.

Jojô não se abalou. Continuou treinando em casa com seu cachorro e passou a gandular peladas em seu bairro. Um olheiro, pensava, iria descobri-lo e o levaria de volta às grandes arenas.

A grande oportunidade surgiu quando da final do campeonato amador do bairro. Num determinado momento do segundo tempo, entretanto, ocorreu o que mais temia. Falta desviada na barreira, bola segue com grande velocidade para a área da junção da linha de fundo e da linha lateral. Jojô não pestanejou, jogou a bola que guardava em direção ao campo enquanto a bola perdida rebatia na bandeirinha de escanteio trazendo-a de volta ao campo.

Era o fim. Duas bolas no campo numa final de campeonato. Gafe imperdoável a qualquer gandula de respeito. Jojô sabia. Dirigiu-se à saída e foi para casa em desespero.

Os anos passaram, Jojô viu inúmeras gerações de gandulas, nenhuma delas realmente engajada com o bom andamento do espetáculo. Jojô já vira demais.
Hoje quando se lembra dos seus bons tempos, Jojô sempre leva um sorriso em seu rosto. Ser gandula é viver. Hoje ele assume, este é o seu lema.

14.5.06

- Então o senhor acha que todos devemos ter sempre um plano B.

- Claro. É um grande erro encarar uma possibilidade como algo único e insubstituível. Nem sempre as coisas acontecem como queremos, isso é meio óbvio, não? Devemos sim, ter nossos planos e metas bem definidos e direcionados. Mas e se algo der errado? Vou retornar à estaca zero por causa de um mero erro? Vou jogar tudo para o alto e então cruzar os braços? Não, meu amigo. Temos que analisar todas as possibilidades. Se o azul não funciona, use o verde. Se o verde não funcionou, tente o amarelo. Tá entendendo o que quero dizer? O rumo de nossas vidas, ao mesmo tempo em que está sob nosso controle, também não está. E isso nunca pode ser esquecido ou deixado de lado.

- É verdade, Capitão. Estou tranqüilo de ter alguém como o senhor liderando esta situação. Mas, se me permite dizer, nosso tempo é curto. A quantidade de água que está entrando pelo buraco é muito grande.

- Meu rapaz, você já ouviu aquele velho provérbio chinês que diz assim: "A pressa é inimiga da perfeição"?

- Já.

- Pois então.

26.4.06

A insatisfação era evidente. Cabeças iriam rolar. Ele passou em volta das três criaturas que agora se contentavam a olhar o mais baixo possível para o chão. Não conseguia acreditar no que acabara de se passar. Tanto suor, tanta luta...Tudo por água abaixo. Uma das criaturas fez menção de se aproximar dando um passo à frente. Grande erro. Seria a primeira a sofrer as conseqüências. Ela tentou se explicar, fez gestos, ajoelhou-se. Não adiantou. Consumida pela culpa que jazia sobre a sua cabeça, confessou. Fizera tudo, contou em detalhes. As outras duas criaturas continuavam impassíveis diante da cena. A criatura-delatora iria pagar, mais tarde obviamente, mas iria de pagar pela traição. Ficou óbvio para Ele, porém, que Esta não era a mandante. Sim, este detalhado esquema deveria possuir uma mente terrivelmente maligna, mesmo implacável. Aproximou-se da criatura de cabelos curtos. Tão bonita e tão infernal. Já vira outras como ela antes. A maioria acabou morta dentro de um saco no fundo do rio. Sua cabeça estava baixa mas ela não chorava como as outras. Ria por dentro. No fundo, achava que seu plano tinha dado certo. Certamente ganharia renome, bastavam alguns dias. Ela refletia pensando no início de tudo. A idéia, a execução à perfeição. Talvez o seu plano virasse um longa-metragem, talvez não. Pensou em escrever um livro e quem sabe virar uma renomada autora. Lembrou-se de que não sabia escrever. Culpa do alfabeto, do sistema. Seu crime fora uma dura crítica ao sistema. Iria triunfar de uma forma ou de outra, era inevitável. O ponta-pé inicial havia sido dado.
A terceira criatura chorava de forma compulsiva. Procurava não fazer movimentos bruscos. Sabia que seria torturada, isso já acontecera anteriormente. Aqueles eram tempos difíceis, a repressão estava em alta. Movimentos, cores, palavras. Pura censura! “Censura, censura, censura!” – gritava interiormente. Chamou a atenção do carrasco. Talvez o grito interno de censura não tivesse sido tão “interno” assim. Ele andou em sua volta com desprezo e pena, procurando uma brecha para atacá-la. “Desta vez não serei compassivo” – disse a si mesmo. Uma buzina se ouviu. Todos paralisaram. O som que vinha do lado de fora definiria as suas sortes. O barulho de algo se abrindo incomodou o executor. Não era possível. Prometeram-lhe mais tempo! Mais tempo! Ele tinha certeza ter ouvido o portão se fechar. Era o fim. Correu o mais rápido que pôde, talvez ainda houvesse tempo. Abriu a porta à sua esquerda e pulou agarrando-se num pedaço de tecido que convenientemente ali se encontrava. Suas vítimas, as três criaturas, aparentavam tranqüilidade. O choro se desfez, a pose voltara ao normal. Isso o irritara profundamente. Quando duas grandes criaturas entraram no local carregando o máximo de sacolas possíveis, tudo estava em paz.
Em sua cama, debaixo do seu cobertor ele jurou vingança, pois sabia que no mundo do irmão mais velho e de suas três pequenas irmãs haveria outros dias em que seus pais iriam às compras e quando esse dia chegasse ele estaria mais preparado que nunca. Ele jurou pela sua bola furada.

15.4.06

Flávio estava no seu terceiro charuto cubano quando Heitor adentrou seu escritório. Não sabia exatamente o que dizer. Em sua mente pensava em diversas maneiras de tirar a vida do sujeito que acabara de se sentar na cadeira à sua frente. O seu olhar penetrante tentava decifrar o que aquela figurada atarracada quase sem cabelos pretendia tocando a caixa de charutos sobre a mesa.

- Cubanos? – argüiu o careca.
- Fidel mesmo os embalou.
- Hahahahaha!

A risada não fora convincente o suficiente para aliviar a tensão. Tentaria ela novamente mais tarde, talvez complementada com um leve rodeio da cabeça.

- Heitor, estou tendo dificuldades para adivinhar o que você está fazendo aqui.

Era isso. O momento era aquele. Tudo acabaria ali.

- Flávio, por favor, preste atenção. Eu...bem eu...eu preciso dos cubanos...dos charutos cubanos.
- C-como? – resmungou Flávio paralisado.
- Os seus charutos, Flávio. Eles possuem o código. Me entregue os charutos.
- Você está delirando?! Saia já daqui! – responde Flávio fazendo um esforço para pegar a Colt que estava na sua terceira gaveta.
- Querido, você não entende. Eu VOU levar os charutos de qualquer jeito. Querendo você ou não. – insistiu Heitor com um sorrisinho no canto da boca.
- Vai levar é CHUMBO no meio da cara, seu lunático!

Essa era a deixa. Heitor retira do seu bolso uma medalha de ouro muito antiga. No centro, um charuto talhado à perfeição. A medalha perturbou Flávio de tal forma que ele nunca compreendera totalmente a forma como Heitor sumira com seus charutos. Na sua mente um charuto gigante pulava de nuvem em nuvem sussurrando de forma enfática Flávio! Flávio!

Flávio acordou dois dias depois na varanda de uma casa de veraneio no sul do México. Os pelos da sua perna direita haviam sido depilados e uma tatuagem na forma de charuto havia sido posta na sua nádega esquerda. Após constatar a existência da mesma, notou que ela lembrava até mesmo em detalhes o charuto do antigo medalhão. Caiu de imediato. Em sua mente o charutão continuava a saltitar feliz. As nuvens, pensava ele, são tão brancas. Flávio! Flávio!

Essa era a gota d’água. Não sabia se Heitor tinha levado os charutos ou não, mas se em alguma dimensão ele ainda o tivesse esperando, já tinha decidido: ele podia ficar com os malditos charutos!

14.4.06

Ele morava sozinho numa ilha deserta após um naufrágio. Ela morava sozinha numa ilha deserta três quilômetros distante da outra ilha. Passaram a se comunicar por meio de fumaça. Tinham tudo a ver. Ambos gostavam de Xuxa e de patinar no gelo. Eram feitos um para o outro. Como a distância entre as ilhas não podiam ser percorrida à nado, o homem resolveu fazer uma pequena canoa e, um dia, ir de encontro à amada. Ele trabalhou dois anos no seu projeto e queria fazer surpresa pra ela.
Finalmente chegou o grande dia. No meio do caminho, ele avista outra canoa vindo na direção contrária. Era sua amada. Ela tivera a mesma idéia.
Encostaram as embarcações, encararam-se, e ele disparou: - Tá quente hoje, né?
Separaram-se no mesmo instante e cada um retornou à sua ilha. Ela nunca aceitara que durante anos de espera a melhor cantada que ele pôde elaborar fora essa. E num dia que nem tava calor! Absurdo.

23.3.06

A encomenda chegou na tarde de sexta-feira. Dois dias além do prazo previsto, mas naquele momento ele não dava a mínima pra tal fato. A ansiedade era tanta que nem percebeu ter fechado a porta na cara do carteiro.

- Tem que assinar, irmãozinho!

Abriu a porta, e com as mãos trêmulas, assinou o documento com certa dificuldade. Depois fechou novamente a porta na cara do carteiro, que não poderia ter usado expressões melhores para mostrar seu repúdio àquele tratamento.

Dirceu pôs a caixa em cima da mesa, sentou-se no sofá e ficou ali, olhando fixamente para ela. Apoiou os cotovelos nas pernas, o queixo nas mãos e depois disso não moveu mais um músculo, por um bom tempo. Quase uma hora, pra ser mais exato. Apenas contemplava aquela caixa, cujo conteúdo havia lhe custado um divórcio, uma alta soma de dinheiro e olhares de repulsa do seu irmão mais velho.

- Se mamãe estivesse viva, ela teria morrido de novo depois dessa.
- Estou com a consciência tranqüila, é isso que vale.

Depois de muita reflexão, resolveu abrir a caixa. Retirou os grampos e isopores com extrema cautela, como se fosse um neurocirurgião operando o Presidente da República. “Nossa, é muito mais bonito do que imaginei!”, pensou alto. Depois espanou a poeira, com um sorriso que ia de um canto a outro da boca. Ligou na tomada, respirou fundo e apertou o botão POWER.

Pena que Dirceu não tinha o costume de ler manuais. Do contrário, saberia que a tomada devia ser de 220 volts.

19.3.06

Ao revelar as fotos que tirara, levou um susto. Um monstro? Um desastre da genética? Um alienígena? Comunista? Um monte de lixo? Ao notar que se tratava de um homem em pleno processo de derretimento, ficou chocado! Mas seu lado mercenário foi mais forte que o humano e logo pôs-se atrás da aberração para, ao menos, tirar mais uma foto e algumas vantagens da criatura. “A essa altura ele já deve ser um quarto de homem”, pensou. Correu atrás de pistas que pudessem levá-lo a ele e pôde perceber que “aquilo” já deixara seu rastro de pânico, terror e vísceras. Soube por diversos depoimentos que a massa disforme relatava o acontecido a qualquer um que passasse, e discorria sobre a sua “sorte”. Era um astronauta que havia retornado de uma viagem experimental a Saturno e seus anéis. A partir do momento em que foi posto em quarentena na NASA, começou a derreter. Fácil imaginar como ele escapou de lá. Ele só ameaçou cuspir em quem tentasse impedi-lo de sair. O astronauta, instintivamente, rastejou por caminhos alheios à sua memória. Claro, seu cérebro já não era o mesmo! Talvez esse fato unido a uma perturbação psicológica decorrente da desintegração – lembrou-se dos extraterrestres dizimados por raios de pistola laser nos desenhos do Pernalonga – fizeram com que pensasse em se vingar da raça humana (por tê-lo incentivado a viajar) jogando-lhe nas costas, ou onde grudar, o peso de ele agora ser um oitavo de um homem.

Passou por entre lavradores a trabalhar nos campos de trigo. Incrivelmente conseguiu escapar, escamoteando-se das foices e enxadas que se puseram atrás dele. Decidiu então atacar criancinhas. Eram mais inofensivas. Em vez de se assustarem e fugirem em pânico, roubaram-lhe um pedaço para moldarem bichinhos. Confundi-lo com argila foi demais! Em torpor, dirigiu-se ao centro da cidade. Acabaria de vez com aquela história e tornar-se-ia um dezesseis avos de um herói. Seria perfeito!

Um casal de velhinhos foi a vítima. Sentados num banco da praça conversavam os dois sobre os avanços da tecnologia nos últimos anos. Um “BÚ” quase inaudível desviou suas atenções e calmamente perguntaram ao ex-tudo a que tipo de experiência ele fazia parte. Foi a gota d’água! Indignado com aquela reação “avançadinha”, começou a chorar, e contou de sua vida anterior à viagem, seus sonhos e ambições. Tudo destruído em uma questão de dias! O que seria daquele um trinta e dois avos de gente? Penalizados, os velhinhos resolveram levá-lo para casa e dar-lhe a atenção merecida, pelo menos até que ele se desintegrasse de vez. Não deu nem pra atravessar a rua. Quando desceu, ou melhor, despencou da calçada, juntou-se à água turva que descia pelo esgoto e sumiu por entre as grades. Ainda puderam ouvir, o casal de velhinhos e o fotógrafo – que finalmente chegara, mesmo atrasado – as últimas palavras do infeliz:

- Tchau, um beeeeij...

17.3.06

Sentado em uma cadeira com um rasgo no meio do assento, ouvia aquela senhora dar seu parecer.

- Pois bem, quero que me traga cópias de sua carteira de identidade, CPF, comprovante de residência, declaração de matrícula, grade curricular, duas fotos 3x4, número da conta no banco, cadastro no CIEE, tipagem sangüínea...
- Tipagem sangüínea?
- Sim.

Devo ser considerado um palerma por achar que determinar meu tipo sangüíneo não é essencial para se conseguir um estágio em uma empresa? Pois é isso que acho. A não ser que meu futuro chefe seja um vampiro com dieta alimentar restrita.

- O novo candidato ao estágio tem sangue O positivo. Devemos aceitá-lo?
- Xi, melhor não. Me dá queimação no estômago. Chame aquele do sangue AB.
- Sim, senhor.

Após aquela senhora dos Recursos Humanos terminar a leitura da relação de documentos necessários, ela me acordou e então fui embora. Não estava me sentindo confortável com a idéia de receber uma seringa na minha veia. Ainda mais de ter que fazer isso para conseguir um mero estágio. O que vão pedir quando eu for fazer o exame de sangue?

- Resultado do teste para motorista? Pra fazer um exame de sangue? Por quê, meu Deus do Céu?
- Precisamos saber se o senhor dirige bem, e não vai sair por aí desperdiçando seu sangue em acidentes de trânsito.

Na atual situação, nem duvidaria disso. Mas no laboratório médico, pelo visto as coisas ainda funcionavam com uma certa normalidade. Sentei-me na frente de outra velha senhora, que enfiava uma lança na minha magra veia enquanto fazia piadinhas de gosto duvidoso, do tipo "Doeu? Mas eu nem senti!". Coisas como essa me fazem ter certeza que uma úlcera me espera no futuro.

Não é uma visão muito agradável ver seu líquido vermelho e precioso, essencial à sua vida, escoar para dentro de uma seringa. Precisava tirar tudo aquilo? Mais algumas gotas e eu ficaria anêmico. A velha ria. Falei que precisaria do resultado com certa urgência, e ela riu mais um pouco. Tem gente que acha que nunca vai ser agredida fisicamente. Cuidado, minha tia. Aliás, notei uma coisa engraçada nela. Gosta de repetir o que as pessoas falam.

- Preciso desse resultado para sexta-feira. Pode ser? - perguntei à assistente.
- Dá sim. O exame é rápido.
- Ele quer o resultado para sexta-feira. - repetiu a velha para a assistente, que fez uma ligeira cara de cu. Coitada, devia realmente precisar daquele emprego.

Pretendo tirar meu passaporte no final do ano. Espero que não me peçam uma carteirinha do Clube do Monza.