A Outra Raça
Os três jantavam em um cômodo iluminado apenas pela chama trêmula de uma vela derretida pela metade que estava no centro de uma mesa, única mobília remanescente de o que algum dia foi uma sala de jantar. Não havia mais lâmpadas, como também não havia mais eletricidade. Tudo isso era apenas lembranças do que a vida costumava ser. Os três moravam naquela casa à quase três anos e mesmo tendo explorado todo aquele prédio em ruínas não haviam encontrado nenhum outro morador.
O avô, o pai e o filho saboreavam o coelho que o primeiro caçara durante o dia. Caçar era o único jeito de arranjar comida desde que os supermercados haviam sido fechados. Mesmo sem o uso de nenhum condimento o fato de aquela ser a única refeição do dia fazia aquele coelho ter um sabor delicioso.
Depois de terminarem de comer, o silêncio dominava o recinto quando o filho resolveu falar.
- Pai, onde estão as mulheres?
A pergunta não surpreendeu o pai. O garoto estava crescendo e passando mais tempo com os outros garotos que se abrigavam em ruínas de casas na vizinhança. Talvez tivesse sido desses meninos que o filho ouvira aquela palavra.
O pai e o avô, como a maioria dos homens que eram velhos o bastante para lembrarem delas, evitavam até mesmo pronunciarem a palavra “mulher” perto dos mais novos. O que havia acontecido com elas era algo a ser esquecido.
- Foi há muito tempo atrás. Pouco depois de você nascer. Convivíamos em paz coma outra raça. A raça que agora vive atrás daqueles muros vivia entre nós. Morávamos nas mesmas cidades, comíamos a mesma comida. Apesar de sermos diferentes física e culturalmente diferentes nós compartilhávamos o planeta harmoniosamente.
O menino ouvia a cada palavra com atenção. Avô agora olhava pela janela. O apartamento onde se abrigavam ficava no décimo primeiro andar e agora o avô olhava os muros gigantescos que separavam a vida farta e desenvolvida de dentro dos muros do mundo selvagem dali de fora.
- Trabalhando juntas, nossas raças desenvolviam uma sociedade aparentemente harmoniosa e a tecnologia avançava a passos gigantescos. Inocentes, não percebíamos que, na verdade, a outra raça planejava secretamente fazer o que sempre quis fazer desde que chegaram a esse planeta: dominar-nos.
Lágrimas começavam a brotar nos olhos do avô. Ele confiava na outra raça. A raça que agora morava dentro daquelas muralhas.
- Quase nenhum de nós desconfiou quando foram sugeridas as construções de grandiosas cidades muradas que funcionavam independentemente do que acontecia no seu exterior. A desculpa era a violência. Ficariam fora das cidades os agressores, assassinos, ladrões. Ostracismo moderno. Logo, mais de cinqüenta cidades-fortalezas foram construídas.
Um zumbido forte interrompeu a aula de história do pai. Era uma das naves que interligava as cidades da outra raça. Passavam três vezes por dia.
- Mas aos poucos as coisas começaram a mudar. Pequenas rusgas tornaram-se grandes desavenças. A outra raça aprendia que era superior e que não dependia nem um pouco de nós. Logo pequenas batalhas cresceram e deram luz a uma guerra. Só percebemos quando já era tarde demais. Ficamos cara a cara com a realidade quando acordamos do lado de fora dos muros. Trancados do lado de fora, voltamos a viver como a idade da pedra. Vivendo nas ruínas das antigas cidades, tivemos que reaprender a caçar e pescar. Apenas poucos de nós ficaram lá dentro. Escravos.
- Mas, pai, onde estão as mulheres? O que eles fizeram com as mulheres?
O pai abaixou a cabeça. O avô suspirou em grande tristeza.
- Filho. As mulheres são a outra raça. Elas nos deixaram. Elas nos traíram. Elas que agora vivem naquelas cidades luxuosas enquanto nós sobrevivemos aqui.
- Mas, pai... Por quê?
- Filho, ninguém sabe. Só sabemos que foram elas que queimaram todos os campos de futebol.

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