"Seus Sonhos Não Mentem"
Moutinho estranhou quando sentou à mesa e não encontrou seu café com leite pronto. Já eram vinte e quatro anos de casamento sólido e sempre encontrava seu café com leite pronto sobre a mesa. Após notar a falta de sua bebida, notou a falta de sua esposa.
Andou pela casa checando cada compartimento até chegar à sala onde encontrou Marta olhando fixamente para a TV desligada. Lágrima caíam sobre seu rosto. Moutinho sentiu a temperatura de seu corpo descer alguns graus quando o olhar penetrante de sua esposa desviou-se da TV e encontrou seus olhos.
- Como você pôde, Moutinho? - perguntou a esposa com uma voz ao mesmo tempo firme e tremida.
- O quê, amorzinho? O que aconteceu?
- Você sabe muito bem o que aconteceu. Quem é a vadia? É a galinha do 301, não é?
- Galinha de quem?!
- Me diga logo! Com quem você está me traindo? Sua amante é do seu trabalho?
Uma amante? Rá. Moutinho não tinha amantes. Na verdade, passava vergonha na frente dos amigos. Todos tinham tórridos casos amorosos sobre os quais comentavam nas mesas durante os happy hours da empresa. Ao ouvir uma das histórias, enquanto os outros colegas contavam vantagem sobre ter levado aquela secretaria de vinte aninhos para a cama, Moutinho montava uma cara de reprovação, mostrando ser um homem correto e que tinha respeito por seu casamento de mais de duas décadas, escondendo, no entanto, que não tinha uma amante por falta de charme.
- Meu amor, de onde você tirou essa idéia? Eu não tenho amante nenhuma!
- Meus sonhos não mentem, Moutinho!
Marta jogou um livro no marido que conseguiu segurá-lo antes de ser atingido no rosto. Na capa, em letras douradas, estava escrito: "Seus Sonhos Não Mentem".
- Ontem a noite eu sonhei que estava aqui em casa quando uma cobra comprida apareceu no nosso quarto. Eu gritava por você mas você não vinha me ajudar. A cobra chegava perto de mim, me picava e eu morria gritando. Acordei logo depois do sonho e não consegui tirá-lo da minha cabeça. Lembrei desse livro sobre sonhos que comprei naquela feira de esoterismo no shopping ano passado.
- Aquela feira que o homem que leu sua mão falou que ganharíamos na sena?
- Não mude de assunto, Moutinho. Página trinta e nove. "Sonho com cobras. Cobras com coloração marrom escuro querem dizer dinheiro..." - Marta chegava mais perto do marido - "... se a coloração da cobra for clara, significa traição. Cobras curtas significam traição dos amigos, mas cobras compridas, Moutinho, meu amor, significam TRAIÇÃO DE MA-RI-DO!"
Agora Marta tinha seu nariz tocando o de Moutinho. O olhar da esposa repleto de cólera penetrava os olhos arregalados do marido.
Temendo ser atacado por Marta a qualquer momento, Moutinho afastou-se cuidadosamente.
- Amor, eu... vou para o... a... o... trabalho. Po... podemos conversar... ã... é... mais tarde... Beijo! - e bateu a porta.
No trabalho, Moutinho não sabia o que fazer. Sua esposa estava claramente possessa de alguma força sobrenatural, encosto ou menopausa, não sabia. Resolveu então procurar resposta no livro dos livros, o único livro que poderia ajuda-lo naquele momento, a lista telefônica.
Frustrado por não achar nenhum exorcista nas páginas amarelas, jogou a lista no chão e abaixou a cabeça, pedindo a Deus por uma resposta.
O telefone tocou. E Moutinho atendeu.
Era a vizinha. A galinha do 301. Disse que algo terrível havia acontecido. Ninguém conseguia explicar direito o que havia acontecido. Os vizinhos ouviram gritos vindo de seu apartamento. Era Marta. Quando conseguiram arrombar a porta, já era tarde. Marta estava morta. Ninguém sabia como aquela cobra de coloração clara e muito comprida conseguiu entrar no apartamento e picá-la.
Moutinho pôs o telefone no gancho sem dizer nenhuma palavra. Havia apenas uma frase em sua cabeça, piscando em sua mente como um painel de neon: "Meus sonhos não mentem."
Dedico essa crônica à minha esposa, que sonhou com a cobra comprida e não acreditou no meu amigo Omid que interpretou o sonho.

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