Navio
Márcio estava confuso. Não podia acreditar que há menos de 3 horas atrás estava a bordo do luxuoso S.S. Ulysses, em direção à costa africana, deitado na cabine mais luxuosa e ao lado de uma mulher seminua, dona de um corpo esplêndido. Era estranho pensar que aquela mulher, que Márcio não lembrava o nome, estava provavelmente morta e, mais estranho ainda, era o fato de estar agora sentado naquela praia vendo o sol nascer ao lado de três estranhos.
A loira sentada à sua direita ali naquela praia era até bonitinha e não devia ter mais de 20 anos. Tinha um belo corpo. Seu vestido era curto e podia ver que tinha pernas longas e bem feitas. Os primeiros raios do sol tocavam seus cabelos castanhos claros e seus olhos verdes. Tinha um ar frágil, mas não parecia assustada. Estava tranqüila e brincava com um pouco da areia branca, como se estivesse entediada.
Márcio olhou a praia de águas transparentes e coqueiros que balançavam com o vento fresco, olhou para aquela mulher exuberante vestida apenas com trapos do que um dia foi um vestido e pensou no imenso clichê que vivia naquele momento. Um clichê quase paradisíaco. O "quase" devia-se ao homem de cabelos brancos sentado à esquerda de Márcio e ao menino se divertindo e cavando um buraco ao lado da fogueira que os aqueceu durante a noite. O menino tinha a pele bem branca e usava uma roupa estranha, uma bermuda grande, suspensórios e uma camisa branca de botão. O menino parecia vestido com trajes dos anos 20. Márcio foi despertado de seus pensamentos pela voz forte e decidida do velho falando:
− Vamos. Temos quer achar um lugar para nos abrigar do sol.
-X-
Mourão tentava lembrar-se dos últimos momentos no navio. Era o caos. Pessoas correndo e gritando atropelavam-se à procura de ajuda. Era surreal. Aquele navio estava afundando. Navios ainda afundavam? O Titanic foi há mais de sete décadas atrás, pelo amor de Deus. Mourão pensava que navios eram mais seguros agora. Aviões caindo, tudo bem. Acidentes rodoviários, normais. Mas, em pleno século XXI, um navio afundando? Faça-me o favor!
Mourão fora campeão estadual de natação em 1976 e fizera parte da marinha quando jovem. Costumava nadar mais de três mil metros todos os dias. Agora, ele tentava lembrar-se da distância ou de quanto tempo nadou até chegar à praia. Não conseguiu. O que nunca esqueceria era da expressão de surpresa daqueles dois quando viram aquele velho sair do mar vivo.
Segundo o rapaz, eles tinham acabado de sair do bote salva-vidas quando o viram surgir dentre as ondas.
O velho olhou ao seu redor e se perguntou quanto tempo passariam naquela praia e se alguém procuraria por eles. Seria tudo mais fácil se aquele rádio estivesse no bote. Analisou a vegetação que margeava a praia com ajuda da luz do sol nascente. Viu árvores frondosas e muitos coqueiros. Não morreriam de fome ou sede. Olhou para o menino brincando na areia e lembrou-se de seu filho que agora já tinha sua própria família. Imaginou seu filho, recebendo a notícia de que o navio que seu pai estava tinha naufragado. Lágrimas começaram a se formar nos olhos de Mourão, mas ele não se permitiu chorar. Levantou-se, sentindo um raio súbito de coragem, e disse:
− Vamos. Temos quer achar um lugar para nos abrigar do sol.
-X-
Regina tinha a cabeça baixa e seus pensamentos iam longe. Há alguns meses ela e seu marido andavam brigando muito e o casamento dos dois estava corroído por ciúmes. A idéia do cruzeiro foi de sua sogra. “Nada melhor que um tempo só pra vocês dois, longe do trabalho” foi o que disse a dona Miriam. E realmente, o cruzeiro tinha tudo pra ser maravilhoso.
O navio era imenso. Regina se perdeu mais de uma vez em corredores infindáveis voltando da piscina para a cabine do casal. Em uma dessas vezes teve que parar e pedir ajuda a um rapaz que tinha melhor senso de direção que ela e seu marido a viu de longe. Brigaram por causa do rapaz. Ciúmes. Regina não agüentou mais. No momento em que o navio começou a afundar, Regina estava sozinha, perto da proa, e tinha acabado de jogar sua aliança no grande escuro que era o oceano enquanto chorava.
Ouviu um estrondo vindo do outro lado da embarcação. Ouviu pessoas gritando bem de longe. Logo o navio começou a afundar e Regina resolveu voltar para a cabine. Seu coração começou a bater forte. De repente, olhou para um dos botes salva-vidas. Havia um menino dentro dele. Ele tinha um olhar indefeso que penetrava a mente de Regina. “Venha”, dizia o olhar. E Regina foi. Sentou-se no bote de frente para a criança, com o olhar grudado nos olhos do menino, como que hipnotizada.
O garoto levantou-se e com habilidade fez o bote começar a descer. O som de pessoas gritando continuava no ar, mas Regina só conseguia olhar para o menino. Sua atenção só foi desviada quando o bote balançou bruscamente, pois um homem havia saltado do navio. O homem fez alguma piadinha como “nossa, quase perdi esse barco” e deu uma risadinha que não se encaixava naquela situação tensa. Pelo menos o homem ajudou o garotinho a descer o bote e em poucos segundos estávamos remando para longe no grande navio que afundava atrás de nós.
Regina ainda não conseguia compreender aquela ligação telepática que teve com o garoto naquele momento ou o fato de não ter visto nenhuma criança a bordo desde que o navio partira. Também não achava explicação para aquelas roupas antigas que ele vestia, mas por alguma razão, sentia-se bem naquela praia.
Olhou para o mesmo menino brincando com a areia na praia e lembrou-se que ele passara a noite dormindo e não conversara com ninguém. Na verdade, ela ainda não tinha ouvido a voz do garoto. Pensou em levantar-se para ir conversar com ele, mas foi interrompida pela voz autoritária do velho:
- Vamos, temos que achar algum lugar para nos abrigar do sol.
-X-
O menino estava alegre. Tinha achado a mãe que queria. No navio, podia sentir que ela estava triste. Lia os sentimento da moça pela sua aura. Ela não queria estar naquele barco. Ela não queria aquela vida. Ela queria um novo começo. Por isso ele fez o navio parar. Por isso ele fez a moça entrar no bote. Não tinha planejado aquele homem no bote, mas ele acabou ajudando. Com suas remadas fortes conseguiram chegar logo na ilha. Também não planejara a presença do velho na ilha.
O plano inicial, quando sentira a grande embarcação se aproximar da ilha, era somente achar uma nova mãe para morar com ele em sua ilha. Podia ler na aura dos dois homens que eles não queriam estar ali. Então, que assim fosse. Aquela ilha pertencia ao menino e só moraria ali quem ele permitisse. Arrumaria um jeito de se livrar dos dois. Havia muitas maneiras de fazer isso ali.
O menino imaginava as várias maneiras de matar os homens quando o velho levantou-se e disse:
- Vamos, temos que achar algum lugar para nos abrigar do sol.
O menino viu a moça e o outro homem se levantarem e seguirem o velho para dentro da mata. Ela virou-se e disse com uma voz doce:
- Vem comigo, querido.
O menino sorriu, terminou de fechar o buraco onde tinha enterrado o rádio que pegara do bote e seguiu sua nova mãe.

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