26.4.06

A insatisfação era evidente. Cabeças iriam rolar. Ele passou em volta das três criaturas que agora se contentavam a olhar o mais baixo possível para o chão. Não conseguia acreditar no que acabara de se passar. Tanto suor, tanta luta...Tudo por água abaixo. Uma das criaturas fez menção de se aproximar dando um passo à frente. Grande erro. Seria a primeira a sofrer as conseqüências. Ela tentou se explicar, fez gestos, ajoelhou-se. Não adiantou. Consumida pela culpa que jazia sobre a sua cabeça, confessou. Fizera tudo, contou em detalhes. As outras duas criaturas continuavam impassíveis diante da cena. A criatura-delatora iria pagar, mais tarde obviamente, mas iria de pagar pela traição. Ficou óbvio para Ele, porém, que Esta não era a mandante. Sim, este detalhado esquema deveria possuir uma mente terrivelmente maligna, mesmo implacável. Aproximou-se da criatura de cabelos curtos. Tão bonita e tão infernal. Já vira outras como ela antes. A maioria acabou morta dentro de um saco no fundo do rio. Sua cabeça estava baixa mas ela não chorava como as outras. Ria por dentro. No fundo, achava que seu plano tinha dado certo. Certamente ganharia renome, bastavam alguns dias. Ela refletia pensando no início de tudo. A idéia, a execução à perfeição. Talvez o seu plano virasse um longa-metragem, talvez não. Pensou em escrever um livro e quem sabe virar uma renomada autora. Lembrou-se de que não sabia escrever. Culpa do alfabeto, do sistema. Seu crime fora uma dura crítica ao sistema. Iria triunfar de uma forma ou de outra, era inevitável. O ponta-pé inicial havia sido dado.
A terceira criatura chorava de forma compulsiva. Procurava não fazer movimentos bruscos. Sabia que seria torturada, isso já acontecera anteriormente. Aqueles eram tempos difíceis, a repressão estava em alta. Movimentos, cores, palavras. Pura censura! “Censura, censura, censura!” – gritava interiormente. Chamou a atenção do carrasco. Talvez o grito interno de censura não tivesse sido tão “interno” assim. Ele andou em sua volta com desprezo e pena, procurando uma brecha para atacá-la. “Desta vez não serei compassivo” – disse a si mesmo. Uma buzina se ouviu. Todos paralisaram. O som que vinha do lado de fora definiria as suas sortes. O barulho de algo se abrindo incomodou o executor. Não era possível. Prometeram-lhe mais tempo! Mais tempo! Ele tinha certeza ter ouvido o portão se fechar. Era o fim. Correu o mais rápido que pôde, talvez ainda houvesse tempo. Abriu a porta à sua esquerda e pulou agarrando-se num pedaço de tecido que convenientemente ali se encontrava. Suas vítimas, as três criaturas, aparentavam tranqüilidade. O choro se desfez, a pose voltara ao normal. Isso o irritara profundamente. Quando duas grandes criaturas entraram no local carregando o máximo de sacolas possíveis, tudo estava em paz.
Em sua cama, debaixo do seu cobertor ele jurou vingança, pois sabia que no mundo do irmão mais velho e de suas três pequenas irmãs haveria outros dias em que seus pais iriam às compras e quando esse dia chegasse ele estaria mais preparado que nunca. Ele jurou pela sua bola furada.