15.4.06

Flávio estava no seu terceiro charuto cubano quando Heitor adentrou seu escritório. Não sabia exatamente o que dizer. Em sua mente pensava em diversas maneiras de tirar a vida do sujeito que acabara de se sentar na cadeira à sua frente. O seu olhar penetrante tentava decifrar o que aquela figurada atarracada quase sem cabelos pretendia tocando a caixa de charutos sobre a mesa.

- Cubanos? – argüiu o careca.
- Fidel mesmo os embalou.
- Hahahahaha!

A risada não fora convincente o suficiente para aliviar a tensão. Tentaria ela novamente mais tarde, talvez complementada com um leve rodeio da cabeça.

- Heitor, estou tendo dificuldades para adivinhar o que você está fazendo aqui.

Era isso. O momento era aquele. Tudo acabaria ali.

- Flávio, por favor, preste atenção. Eu...bem eu...eu preciso dos cubanos...dos charutos cubanos.
- C-como? – resmungou Flávio paralisado.
- Os seus charutos, Flávio. Eles possuem o código. Me entregue os charutos.
- Você está delirando?! Saia já daqui! – responde Flávio fazendo um esforço para pegar a Colt que estava na sua terceira gaveta.
- Querido, você não entende. Eu VOU levar os charutos de qualquer jeito. Querendo você ou não. – insistiu Heitor com um sorrisinho no canto da boca.
- Vai levar é CHUMBO no meio da cara, seu lunático!

Essa era a deixa. Heitor retira do seu bolso uma medalha de ouro muito antiga. No centro, um charuto talhado à perfeição. A medalha perturbou Flávio de tal forma que ele nunca compreendera totalmente a forma como Heitor sumira com seus charutos. Na sua mente um charuto gigante pulava de nuvem em nuvem sussurrando de forma enfática Flávio! Flávio!

Flávio acordou dois dias depois na varanda de uma casa de veraneio no sul do México. Os pelos da sua perna direita haviam sido depilados e uma tatuagem na forma de charuto havia sido posta na sua nádega esquerda. Após constatar a existência da mesma, notou que ela lembrava até mesmo em detalhes o charuto do antigo medalhão. Caiu de imediato. Em sua mente o charutão continuava a saltitar feliz. As nuvens, pensava ele, são tão brancas. Flávio! Flávio!

Essa era a gota d’água. Não sabia se Heitor tinha levado os charutos ou não, mas se em alguma dimensão ele ainda o tivesse esperando, já tinha decidido: ele podia ficar com os malditos charutos!