Escritor
Um
Rui conhecia muito bem o homem que estava sentado à frente de seu computador. Seu nome era Doutor Green e, até onde Rui sabia, ele deveria estar na ilha deserta onde morava. O que Green fazia sentado confortavelmente em seu apartamento era uma pergunta que estava além da compreensão de Rui.
– O que você quer de mim? – Rui perguntou com um tom calmo, como se negociasse com um seqüestrador.
– Não estou gostando do rumo que sua história está tomando. Eu vou perder não vou? – Os olhos do doutor mostravam mais tristeza do que raiva ao fazer a pergunta.
– Ainda não decidi. – mentiu Rui.
Dois
Rui estava trancado em seu apartamento há uma semana. Era assim que ele funcionava. Para escrever um bom livro Rui tinha que se esconder do mundo. A tática vinha dando certo. O apartamento era apertado e em todas as janelas, cortinas pesadas bloqueavam qualquer luz que ameaçasse penetrar o ambiente. Era impossível dizer se era dia ou noite. Ele escrevia livros infanto-juvenis e a sua mais recente série, A Ilha Lua, vendia mais a cada livro lançado. Escrevera todos os seis primeiros livros no mesmo computador, sentado na mesma cadeira ocupada agora pelo corpanzil de Doutor Green. A tela agora mostrava o texto que Rui digitara antes de desmaiar de sono em cima do teclado há apenas poucas horas atrás.
– Mas, de acordo com o que eu li enquanto você dormia, eu não tenho mais muita chance.
Realmente, Rui já estava quase no fim do sétimo e último livro da Ilha.
– Claro, Green. Você é o cara mal. O vilão. Você tem que perder.
Três
– Não, Rui, não! O cara mal pode ganhar! Você pode ser o primeiro a fazer isso! – ao dizer isso, o doutor deu um soco no teclado que fez surgir na tela um emaranhado de letras.
– Green, é literatura infantil. Ninguém com mais de 15 anos lê meus livros! Eu simplesmente não posso deixar você vencer.
Rui mentira outra vez. Muita gente com mais de 15 anos acompanhava a busca de Cris, o menino órfão, e o maligno Doutor Green pelo tesouro da Ilha Lua.
– Pense, Rui, pense. Você seria o pioneiro. As pessoas comentariam o seu último livro durante anos! Você finalmente poderia escrever livros de verdade. Livros sérios!
O silêncio de Rui dava esperança a Green. Então o vilão resolveu dar o golpe final.
– Você poderia publicar “Beatriz”.
Quatro
Rui tentara várias vezes escrever livros para adultos, nos quais pudesse usar uma linguagem mais complexa e falar sobre violência ou sexo, tópicos proibidos em suas séries da Editora Vaga-lume. E a mais bem sucedida dessas tentativas foi “Beatriz”. Escrevera esse livro no intervalo entre o segundo e terceiro livro da Ilha. Ao terminar de escrevê-lo Rui experimentou a paz e alegria plena de terminar uma obra prima. Rui sabia que a história da prostituta e assassina em série era seu auge literário. Infelizmente, a editora não ficou muito empolgada e resolveu não publicar o livro. Rui, claro, protestou, mas acabou dando razão a eles. Ele perderia os dois extremos. O conteúdo pesado de “Beatriz” o impediria de voltar a escrever textos infantis e poucas pessoas comprariam um livro “adulto” do criador de Cris e seu cãozinho Lobo.
– Como você sabe sobre “Beatriz”?
Cinco
– Não importa como eu sei. Importa que eu sei e você sabe: é uma obra prima! – Rui continuava sentado, olhando o carpete escuro de seu escritório enquanto Green continuava seu discurso – E aqueles filhos-da-puta não quiseram publicar! Pro inferno com eles, Rui! Você não é Maurício de Souza, você é Frank Miller. Você não é Monteiro Lobato, você é Stephen King!
As palavras de Green não entravam mais por seus ouvidos. Continuava de cabeça baixa, mas tapava seus ouvidos com suas mãos usando todas suas forças. Apesar disso continuava ouvindo Green. Ele realmente queria vencer. E Rui sabia que era errado. Quantas crianças leram os seis primeiros livros e esperavam ávidas pela vitória e redenção de um menino órfão que queria achar o tesouro para salvar seu endividado orfanato?
– Não existem mais crianças como antigamente, Rui. Hoje elas se divertem matando gente no videogame e vendo mulher pelada na Internet. Faça o vilão ganhar e seja feliz.
Rui parou por um segundo sua máquina de pensar. O óbvio havia batido à porta de sua mente. Ainda tinha os olhos fechados e cabeça baixa. A voz de Green vinha de dentro de sua mente.
– Eu sou você, Rui. Você sabe disso! Eu posso te controlar enquanto dorme. Eu usei seu corpo para ler o que você escreve. Siga meu conselho, senão você pode não acordar um dia e alguém descobrirá seu corpo e todos se perguntarão porque um escritor infantil estourou os próprios miolos enquanto escrevia o último livro de sua famosa série.
O coração de Rui batia forte. Ele sentia que Green era realmente capaz disso. Não sabia como, mas sabia que ele podia. Se ele sabia sobre a arma que tinha em uma caixa no armário, Green também sabia.
Seis
Assustado, abriu os olhos e estava sozinho em seu escritório, deitado em sua cama. Correu para o escritório. A cadeira em frente ao computador estava vazia. Olhou ao redor com movimentos rápidos como se Doutor Green tivesse se escondido dele. Rui foi até a cozinha e olhou. Ninguém. Banheiro, sala de estar, quarto de visitas. Nada. Voltou ao escritório, iluminado apenas pela luz vinda do monitor do computador, realmente convencido. Tinha sonhado. E que sonho! Graças a Deus era o último livro daquela série! Estava se envolvendo muito. Sonhar com Doutor Green, quem diria?
Voltou à cozinha, encheu um copo com água gelada e bebeu metade. Abriu a geladeira e jogou todas as latas de cerveja, companheiras de confinamento, na lata de lixo. Prometeu a si mesmo que no próximo livro não beberia nem uma gota de álcool. Ao passar pela sala de estar, abriu a cortina e olhou pela janela. Estava amanhecendo. Já deviam ser quase seis horas, a padaria do outro lado da rua já estava aberta. Viu duas pessoas saindo de lá com sacolas de pão e abriu um sorriso. O mundo normal era maravilhoso.
Sete e Último
Puxou a cadeira disposto a terminar a série ali. Hoje seria escrito o último capítulo da Ilha Lua. O final já estava dentro de sua cabeça e retirá-lo de lá era a parte fácil. A batalha final entre Cris e Doutor Green ainda precisava ser escrita. Os dois estavam dentro da caverna que desmoronava por causa de um inoportuno terremoto. Cris corria para salvar sua vida, enquanto Green corria o máximo que podia com o pesado baú nas mãos. Esse era o lugar exato onde Rui havia parado na noite passada. Repensou o fim que daria a seu “visitante” de ontem à noite. Uma pedra cairia em sua perna, quebrando-a e o baú cairia fora da caverna ao lado de Cris. O herói olharia o baú e o doutor caído dentro da caverna, prestes a ser enterrado vivo e com um ato de bravura, arriscaria sua própria vida para arrastar seu arquiinimigo para fora da caverna. Cris fugiria então com o baú e Green viveria, mas sem seu precioso tesouro. Fim. Não iria ganhar nenhum Nobel de Literatura, mas as crianças ficariam felizes e aprenderiam que devem fazer o bem sem olhar a quem.
Sentou-se pronto pra escrever, mas quando olhou a tela não pôde mexer nem um músculo. Ao final do texto escrito havia um emaranhado de letras juntas, sem nenhum sentido aparente. Muitas consoantes juntas, algumas vogais dispostas entre elas. Depois de ver aquelas “palavras”, passaram-se alguns segundos até Rui entender. Lembrou-se de Green dando socos no teclado enquanto tentava convencê-lo a mudar seu final no sonho. Sonho? As letras no computador não negavam. Green era real e estava ali naquele escritório. Rui apagou a parte estranha do texto e começou a escrever o seu texto.
Epílogo
O livro foi bem aceito. Não foi um sucesso, mas vendeu bem. Alguns críticos não gostaram da morte de Doutor Green. Acharam que as crianças poderiam sentir a perda de um dos personagens principais, mesmo sendo o temido Doutor Green. Além disso, falaram que Rui acabou com a chance de uma segunda série, com os mesmos personagens.
Mas Rui estava feliz. Dormira todas as noites em paz. Nunca mais pensara em Doutor Green e nada de estranho acontecera. Não se matara no meio da noite.
Agora Rui estava em cárcere privado voluntário mais uma vez. Começara a escrever uma história policial para adolescentes. O plano era subir de faixa etária aos poucos.
Enquanto digitava o capítulo oito de seu novo livro, Rui descobriu um cheiro estranho em seu escritório. Era um cheiro doce. Perfume de mulher, com certeza. Mas já estava há três dias sozinho em seu apartamento.
– Oi, Rui.
Era uma voz feminina. O cheiro do perfume foi invadido por um odor mais forte. Alguém tinha soltado fumaça de cigarro em seu rosto. Ao virar esperou ver Doutor Green. Não era ele. Era a dona do perfume. Uma mulher muito branca, mas com um corpo divinal. Segurava a arma que normalmente ficava dentro de uma caixa no armário de Rui.
– Ainda escrevendo historinhas de crianças? – perguntou Beatriz antes de dar outra baforada no rosto de Rui.

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